quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

trem da prevenção na Central do Brasil 11/02



Ação de prevenção na Vila Mimosa



Quando Rei Momo assumir a chave da cidade, a turma da Vila Mimosa já estará devidamente esclarecida sobre a importância de curtir a folia com responsabilidade. É que nesta quinta-feira, dia 12, haverá uma ação preventiva no reduto de entretenimento sexual, distribuindo preservativos e material educativo sobre as doenças sexualmente transmissíveis. A partir das 15h, haverá vacinação gratuita contra Hepatite B e testes de HIV, para os freqüentadores da Vila Mimosa. Os testes também são de graça e o resultado rápido(em torno de 20 minutos) e sigiloso. Este é o segundo ano em que a Linha 4 do Metrô (Barra da Tijuca – Ipanema) apoia a ONG Grupo Pela VIDDA/RJ nesta iniciativa. A secretaria municipal e a Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (AMOCAVIM) também apoiam o projeto. ​
 
RELEASE:
 
Linha 4 do Metrô promove distribuição de camisinhas, vacinação e palestras na Vila Mimosa
 
Ação educativa, nesta quinta-feira (12/02), terá testes gratuitos de HIV para os frequentadores
 
Às vésperas da folia de Momo, nesta quinta-feira, dia 12, haverá uma ação preventiva na Vila Mimosa, região central da cidade, distribuindo preservativos e material educativo sobre as doenças sexualmente transmissíveis(DST). A partir das 14h, haverá vacinação gratuita contra Hepatite B e testes de HIV, para os freqüentadores do local. Os testes também são de graça e o resultado será rápido(em torno de 20 minutos)  e sigiloso.
Este é o segundo ano em que a Linha 4 do Metrô (Barra da Tijuca – Ipanema) apoia a o‘Grupo pela VIDDA/RJ’ nesta iniciativa para os freqüentadores da Vila Mimosa. A secretaria municipal de Saúde e a Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (AMOCAVIM) também apóiam o projeto.
 
Desde o início das obras da Linha 4 do Metrô, um Programa de Educação Sexual estimula o comportamento sexual responsável entre os colaboradores, com palestras educativas e campanhas de prevenção. Em dezembro do ano passado, mês do combate mundial à Aids, duas máquinas de distribuição de camisinhas foram instaladas nos banheiros do canteiro administrativo do Jardim de Alah. No início deste mês, a distribuição gratuita dos preservativos foi ampliada a outros canteiros da Linha 4 do Metrô. A campanha faz um paralelo entre os equipamentos de proteção individual (EPIs) usados na obra e a camisinha, itens indispensáveis à segurança: “Na obra, use sempre EPI. E fora dela, leve a camisinha!”.
 
Mais de 300 mil pessoas vão usar a Linha 4 do Metrô
A Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro (Barra da Tijuca—Ipanema) é uma obra do Governo do Estado do Rio de Janeiro e vai transportar, a partir de 2016, mais de 300 mil pessoas por dia, retirando das ruas cerca de 2 mil veículos por hora/pico. Serão seis estações e aproximadamente 16 quilômetros de extensão. A ligação metroviária entre Ipanema e a Barra da Tijuca estará à disposição dos passageiros em julho de 2016, com a operação comercial da nova linha nos mesmos horários das demais linhas do metrô. Será possível ir da Barra a Ipanema em 13 minutos e, da Barra ao Centro, em 34 minutos. Os usuários poderão ainda deslocar-se da Pavuna até a Barra da Tijuca, pagando apenas uma tarifa.
 
Grupo Pela VIDDA
O Grupo Pela VIDDA do Rio de Janeiro (GPV-RJ) foi fundado em 24 de maio de 1989, pelo escritor Herbert Daniel. Trata-se do primeiro grupo fundado no Brasil por pessoas vivendo com HIV e AIDS, seus amigos e familiares. Os objetivos principais da ONG são a ruptura do isolamento e a desconstrução do estigma relacionado à doença, a reintegração social dos portadores de HIV e AIDS, e a defesa dos direitos e a garantia da dignidade dessas pessoas.WWW.pelavidda.org.br

 
 
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As novas inscrições para participação no 17º VIVENDO serão feitas somente no local do evento e mediante disponibilidade....
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Família Sorodiscordante - Programa Em Família - Canal Saúde / #Fiocruz


Família Sorodiscordante - Programa Em Família - Canal Saúde / #Fiocruz

Mesmo eu e meu parceiro(a) tendo HIV precisamos usar CAMISINHA?
https://www.youtube.com/watch?v=1rcmFaKlaqs


#partiuteste #ms #carnaval2015

Atenciosamente,

Cazu Barroz
Coordenador Comissão Nacional Programa Saúde do Jovem
Federação de Bandeirantes do Brasil

E-mail Institucional - Cazu Barroz.png

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Balanço: Ativistas apontam erros e acertos da luta contra a aids em 2014

Balanço: Ativistas apontam erros e acertos da luta contra a aids em 2014

29/12/2014 – 09h
2014 foi um ano de inúmeras novidades, o que gerou também muitas dúvidas, especialmente em relação ao tratamento e prevenção do HIV. Curas anunciadas, como a do famoso caso do bebê do Mississippi, não se concretizaram. Mas houve avanços em pesquisas e especialistas seguem dizendo que há esperanças e tudo é questão de tempo. No Brasil, o debate foi caloroso em torno de questões como prevenção, adoção de novas tecnologias, consequências do tratamento como prevenção, disponibilidade de testes rápidos. Pedimos a alguns ativistas para apontarem os erros e acertos do combate à aids em 2014. Veja o que eles listaram:

José Araújo Lima, coordenador do Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (Epah)
4 acertos:

1. A diminuição da transmissão vertical;
2. As campanhas visando a testagem da população;
3. A maior disponibilidade de preservativos em algumas regiões do país;
4. Não ter faltado antirretrovirais na rede de saúde.
5 erros:
1. O grande fechamento de ONGs pelo país afora, fragilizando a política contra a aids;
2. O aumento de índices de infecções entre os jovens gays no Brasil;
3. Campanhas conservadoras menosprezaram avanços na área de comunicação e aids;
4. A insistência do governo em colocar à venda testes nas farmácias sem debater estratégias com a sociedade civil;
5. A resistência do governo brasileiro em usar como prevenção a informação de que são baixíssimos os riscos de infecção de HIV via portadores com taxa viral indetectáveis;
6. A falta de eficiência da rede Sistema Único de Saúde (SUS) em atender as pessoas com HIV em todos o país.


Diego Callisto, da Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV/Aids
4 acertos:

1. A campanha de prevenção desse ano do Ministério da Saúde para o dia mundial de Luta Contra à Aids;
2. A chegada do medicamento 3 em 1;
3. A chegada do medicamento 2 em 1;
4. A chegada do medicamento Kaletra termoestável.
5 erros:

1. O desalinhamento dos estudos de profilaxia pré-exposição (PreP) no Rio Grande do Sul;
2. A ausência de campanhas de prevenção nas  redes sociais; 
3. Falta de PPD – exame para detectar tuberculose;
4. A forma de monitoramento da utilização do teste de fluido oral nas ONGs;
5. A pouca informação sobre profilaxia pós-exposição (PeP sexual).


Jucimara Moreira, do Grupo Pela Vidda/Rio de Janeiro e do Movimento das Cidadãs Posithivas:
5 acertos:

1.  Fóruns Regionais;
2. Mudança no Departamento de Aids (na coordenação e equipes);
3. Retomada do Grupo de Trabalho (GT) de Lipodistrofia;
4. Implementação do GT de Adesão;
5. A mudança do ministro da Saúde – esse (Arthur Chioro) pelo menos ouve o movimento social.
5 erros:
1. Não utilização correta dos resultados dos Fóruns Regionais;
2. Equipe do Departamento em sua maioria sem muito conhecimento da temática da aids;
3. Campanha de 1º de Dezembro com tom comemorativo, em vez de resolver primeiro os problemas como: falta de medicamentos, leitos, campanhas banalizando a aids...
4. Implementação dos testes rápidos de HIV sem resolver problemas de infraestrutura nos estados e municípios para receber os novos casos detectados;
5. A implementação do testar e tratar sem a qualificação dos profissionais de saúde para isso.


Silvia Almeida, do Grupo de Incentivo à Vida (GIV) e do Movimento das Cidadãs Posithivas
5 acertos:

1. Voltar a falar sobre a necessidade de distribuição do preservativo feminino e da importância dele para o empoderamento da mulher;
2. O apoio do Centro de Referência e Treinamento (CRT-SP) aos encontros e outros eventos de entidades do movimento social da aids;
3. A representação do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais (DDAHV) no Encontro Nacional das Cidadãs Posithivas, em novembro.  O fato de manterem alguém acompanhando o dia a dia do evento sinalizou uma reaproximação do governo com as ONGs;
4. As celebrações de 1º de Dezembro, Dia Mundial da luta Contra a Aids, foram bem legais. Destaco o lançamento do documentário “Aids: As Respostas das ONGs no Mundo”, de Roseli Tardelli. Um filme que nos leva a olhar para fora (do país), ver o que estão fazendo lá. Isso nos dá parâmetros para a nossa luta;
5. Também relativo ao 1º de Dezembro, gostei muito da ação Passeio Ciclístico Pela Vida e Contra a Aids, promovido pelo Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, no centro da cidade. É importante falar de aids por meio de qualidade de vida.
5 erros:
1. O breque político das bancadas evangélicas que impediu o trabalho de prevenção das DST/aids nas escolas. É absurdo que o governo, até hoje, não tenha conseguido implantar o projeto Saúde e Prevenção as Escolas; 
2. A demora na distribuição de novos medicamentos, especialmente os dois em um e três em um, que facilitariam muito a adesão ao tratamento. E também a falta de critérios para definir quem vai usar esses remédios;
3. O repasse de verbas paras as ONGs foi engessado. As entidades trabalharam menos, muitas fecharam, muitos projetos não foram realizados;
4. Falta de incentivo à recomendação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para que as empresas implementem ações efetivas de combate ao HIV e à discriminação das pessoas vivendo com o vírus. 
5. A prevenção falhou de forma geral. Não adianta colocar camisinhas nos postos de saúde se não existe uma campanha informando sobre isso e mostrando os benefícios do uso dela
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Redação da Agência de Notícias da Aids
 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Novos e velhos desafios


por Cláudia Carneiro da Cunha*
Fábio Grotz**
Washington Castilhos***

Três décadas de epidemia do HIV/Aids e os desafios persistem mesmo com os avanços biomédicos e a contínua mobilização de movimentos de direitos humanos. Na semana em que se comemorou mais um Dia Mundial de Luta contra a Aids (01/12), dados lançados pelo Ministério da Saúde brasileiro mostram que a infecção pelo vírus aumentou mais de 50% entre a população de 15 a 24 anos nos últimos seis anos. Relatório da UNAIDS de meados deste ano já apontava o crescimento de 11% nos casos de infecção entre a população brasileira de 2005 a 2013, tendência oposta à média mundial (infecções diminuíram 13% nos últimos três anos). Esse cenário evidencia tanto os limites e fragilidades da resposta à epidemia quanto a necessidade de reflexão sobre as formas de mobilização para enfrentar a situação.

Desde os anos 1990, a produção de antirretrovirais (ARVs) tem sido crescente e figurado como ferramenta central para o enfrentamento global da epidemia. A partir de 1996, o Ministério da Saúde brasileiro passou a distribuir gratuitamente e de forma universal a medicação ARV na rede pública de saúde. No ano passado, a oferta do coquetel para todos os indivíduos diagnosticados com o vírus – independe da manifestação da doença – tornou-se regra do protocolo clínico e das diretrizes terapêuticas. A aposta biomédica contra a epidemia tem sido a tônica mundial, conforme demonstra decisão desta semana da Organização Mundial da Saúde (OMS) de expandir a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) para todos os indivíduos envolvidos em situação de risco de transmissão, e não mais apenas para aquelas pessoas vítimas de estupro ou envolvidas em acidentes ocupacionais com agulhas contaminadas. Em julho, a OMS já tinha definido novas diretrizes, recomendando a algumas populações-chave – como homens que fazem sexo com homens (HSH), trabalhadores/as do sexo e indivíduos transgêneros – a ingestão de ARV como método de prevenção, a chamada Profilaxia Pré-Exposição (PrEP).

Nesse cenário, cabe interrogar-se sobre o panorama brasileiro. Por que as estratégias de prevenção não têm dado certo? Por que no Brasil a infecção entre os jovens vem crescendo em uma velocidade bem maior que da população geral? Especialistas afirmam que a expansão da epidemia, sobretudo entre os jovens, tem como motivo principal um comportamento sexual menos preocupado com a doença, por estes acreditarem que hoje ninguém mais morra de Aids, ou que se contrair o vírus é só tomar o remédio – disponível para todos no Sistema Único de Saúde (SUS) – e estará tudo bem, aspectos descritos por pesquisadores como “banalização da AIDS” e “otimismo”.

De fato, os avanços biomédicos alteraram, em alguma medida, a representação dominante do início da epidemia de que ter o vírus significava uma “sentença de morte”. No entanto, isso não explica integralmente a situação. Pelo contrário, a responsabilização pode ser um caminho que ofusca as fragilidades da rede pública de saúde, não reflete criticamente a respeito da concepção das estratégias de prevenção e ignora, por fim, as relações de opressão e marginalização baseadas em desigualdades de gênero, cor/raça, sexo, renda, entre outros marcadores sociais da diferença, que vulnerabilizam mais alguns indivíduos e grupos em comparação a outros.

A omissão e o descuido em relação às desigualdades sociais de diversas ordens que marcam a sociedade brasileira são fatores importantes para a compreensão do crescimento da epidemia no país. Também os problemas na rede pública de saúde compõem esse cenário, pois são comuns denúncias de atendimentos precários e falta de remédios em unidades de saúde em diversos Estados.

Nos últimos anos, à medida que a alternativa medicalizante tem sido priorizada pelos gestores, a perspectiva de direitos humanos tem sido enfraquecida. Isso é notável nos recuos do governo federal em campanhas recentes de prevenção destinadas a grupos vulneráveis (como HSH e travestis - e prostitutas).

Desde a aparição da doença nos anos 1980, a luta contra o estigma e o preconceito tem sido uma bandeira central para os movimentos de combate à doença, pautados nos direitos humanos. Ser portador do vírus implicava – e ainda implica – forte carga moral por associar os soropositivos a uma série de estigmas, tais como o da culpa pela infecção e o da figura sexualmente desviante, promíscua e “perigosa” para a população como um todo. Tais estigmas recaíram de maneira flagrante sobre os homossexuais, nos primeiros momentos da epidemia, imagens que foram afastadas devido à forte ação desses mesmos movimentos. Por isso, a concepção de direitos humanos constitui uma ferramenta importante, pois o estigma é, em si, um forte obstáculo à prevenção e ao tratamento da Aids, conforme uma série de estudos demonstram.

Prova disso é o aumento da epidemia entre as mulheres. Os homens continuam sendo os mais afetados pelo vírus, mas a diferença em relação a elas caiu ao longo dos anos: em 1989, a proporção era de seis casos da doença no sexo masculino para cada caso no sexo feminino. Em 2011, a proporção passou a ser de 1,7 casos em homens para cada mulher infectada: um cenário em que a vulnerabilidade social é fator importante para a análise, na medida em que as relações desiguais de gênero colocam a mulher em situação vulnerável, por exemplo, na hora de negociar a camisinha com seu parceiro.

Com relação a outros grupos vulneráveis – como os jovens – uma das ações mais notáveis é a dos jovens vivendo com HIV/Aids, que tem protagonizado ações junto a gestores, profissionais de saúde e movimentos sociais, através da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids (RNAJVHA), e das Redes Regionais e Estaduais filiadas à RNAJVHA . A proposta é pautada pela ideia de fortalecer esses indivíduos em termos políticos e sociais, apostando na atenção integral à saúde como maneira de demonstrar que a doença não significa morte. No entanto, conforme a antropóloga Cláudia Cunha analisou em seu estudo de doutorado, a iniciativa apresenta alguns problemas, como o “fantasma” da responsabilização ao gerar, através da operação de protagonismo, o contra-efeito de produzir socialmente indivíduos percebidos como “descontrolados”, “irresponsáveis” e potencialmente “perigosos”.

Nesse contexto, o cenário brasileiro situa-se em um momento paradoxal: contrariamente à tendência mundial de redução de novas infecções e ao forte investimento em prevenção biomédica, o país assiste à expansão da epidemia, notadamente entre populações vulneráveis. A sociedade civil e os movimentos sociais têm demandado mudanças nas estratégias de prevenção e tratamento. De um lado, a taxa de mortalidade reduz-se (caiu 13% entre 2000 e 2013, de acordo com o Ministério da Saúde) – o que pode ser lido como um atestado de eficácia da medicação ARV. Do outro lado, o vírus continua a circular por novos corpos em um ritmo considerável. Quais são, nesse sentido, as respostas adequadas para dar conta dessa realidade? O Ministério da Saúde lançou no dia 01/12 a campanha “#Partiu teste”, voltada para a população jovem em um esforço para que o número estimado de pessoas que desconhecem sua soropositividade (150 mil, segundo o Ministério da Saúde) diminua. Talvez as respostas para o panorama atual sejam ampliar os esforços para além da ação biomédica, através de ações que também priorizem a dimensão social da epidemia e que sejam baseadas na ideia de direitos humanos. Assim, é possível que se saiba, de fato, quem são os jovens que irão “partir para o teste” e quais as suas realidades.

A saída pra essa situação não é simples e tampouco nova. Desde o início da década de 90, o conceito de vulnerabilidade aplicado ao contexto da epidemia já sinalizava para a importância de compreender que a AIDS varia de região para região do mundo, estando diretamente relacionada aos contextos sociais, notadamente aqueles marcados pela pobreza e desigualdade social. Assim, no contexto brasileiro, os riscos de infecção pelo HIV aos quais estão submetidos jovens de camadas médias e altas e aqueles de camadas populares são bastante diferentes. O contexto onde se pratica o sexo, com que tipo de parceiro(s), premido por determinados roteiros sexuais culturalmente marcados, submetido ou não a situações de coerção e violência, com ou sem acesso a serviços de saúde, resultam em distintas possibilidades de “se prevenir” da doença. É preciso então, no que tange à prevenção, retomar a velha receita de atentar para os valores culturais e contextos de vida dos indivíduos, aqueles mesmos que os tornam atores sociais.

* Cláudia Carneiro da Cunha é antropóloga, pós-doutoranda em Saúde Coletiva no Instituto de Medicina Social/Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

** Fábio Grotz é jornalista, mestre em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2013).

*** Washington Castilhos é jornalista e ativista pelos direitos sexuais, pós-graduado em Gênero e Sexualidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2011).

Publicada em: 04/12/2014

Cabeça Pra Cima - HIV 25-02-2014 Mara Moreira com Dr. Gustavo

A Cura da AIDS

A cura da Aids

*por Richard Parker

Texto publicado originalmente no site da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids

Vinte anos se passaram desde que Herbert de Souza, o Betinho, o fundador da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), lançou o livro de crônicas A Cura da AIDS, em 1994. Como o título anunciou, ainda que fosse num tempo em que não havia tratamentos eficazes disponíveis, Betinho entendeu o quão importante era a perspectiva de uma cura da AIDS, não apenas para aqueles que vivem com HIV, mas para todos que buscavam proteger a si mesmos e também aqueles que amam: “de repente, percebi que tudo havia mudado por causa do anúncio de uma cura. Eu percebi que a ideia da morte inevitável paralisa. Eu percebi que a ideia de vida motiva… mesmo assim a morte é inevitável, como todos nós sabemos.” (Betinho, O Dia da Cura, 1994)

Na época, Betinho obviamente sabia que ainda não havia uma verdadeira cura para o HIV, mas acreditava, com total convicção, que algum dia haveria. Ele sabia do tamanho da violência que o estigma e a discriminação nos casos de HIV e AIDS podem causar no ser humano. E acreditava tão firmemente que, enquanto trabalhamos para encontrar a cura, a solidariedade é a vacina mais eficaz contra o vírus ideológico do preconceito e da intolerância. De uma forma única, Betinho acreditava na possibilidade de superar a adversidade – de imaginar um futuro que gostaríamos de viver – e de lutar todos os dias para torná-lo realidade. Mais do que qualquer coisa, ele acreditava que o Brasil poderia ser um exemplo brilhante do que há de melhor no mundo para ser oferecido em resposta à epidemia. Como ele escreveu em 1989, há exatos 25 anos: “O Brasil, através de segmentos representativos, por suas características e potencialidades, pode-se constituir num exemplo de mobilização… Difundindo uma outra visão sobre a epidemia que restaure a cura como perspectiva e a solidariedade como princípio de todo o trabalho de prevenção.” (Betinho, “Políticas Públicas e AIDS”, 1989)

De lá para cá, muitas coisas mudaram. A cura ainda não foi descoberta, mas já percorremos um longo caminho. Desde 1996, surgiram tratamentos antirretrovirais cada vez mais eficazes – no caso brasileiro, quando é garantido o acesso ao sistema de saúde pública – e capazes de transformar a infecção pelo HIV em uma doença crônica e controlável. O Brasil aprovou uma lei que garante o acesso aos medicamentos para todos e que respeita este direito humano fundamental. E, graças a lutas por acesso ao tratamento em vários países, tem sido cada vez mais reconhecido que toda vida humana é importante, e que ninguém, seja rico ou pobre, deve ter negado o acesso aos medicamentos que podem salvá-lo. Ainda não alcançamos o acesso universal em todos os países – e há muito a ser feito neste sentido – mas podemos comemorar o fato de que, neste momento, 13.6 milhões [3] de pessoas no mundo têm acesso ao tratamento de HIV. Isso, embora continuemos a lutar para que 21.4 milhões [4] de pessoas infectadas e que permanecem sem o acesso, tenham garantidos seus direitos no futuro, especialmente se trabalharmos para que isso se torne realidade.

Assim como tem ocorrido avanços, há também conquistas relevantes em relação à prevenção. E mais uma vez, a receita de Betinho para o sucesso tem sido central: as realizações mais poderosas em relação à prevenção do HIV vêm do sentimento de solidariedade, que se baseia no respeito pela diversidade e pela diferença. É baseado no espírito de solidariedade que programas de prevenção têm sido desenvolvidos por e para até mesmo as populações mais marginalizadas e estigmatizadas. E reconhecem, de forma consistente, que todas as vidas importam e que todos os grupos e comunidades merecem tanto o acesso à prevenção quanto ao tratamento. Ambos devem ser garantidos como um direito. E como Betinho previu, por muitos anos, o Brasil foi um brilhante exemplo deste espírito: desenvolveu programas de prevenção com ousadia autoconsciente, impulsionou os limites da discussão aceitável através da criação de programas de educação e prevenção – com uma visão profundamente positiva da sexualidade e da diversidade sexual – e desenvolveu programas de redução de danos para o tratamento do uso de drogas no contexto da saúde pública. Tudo isso com uma visão próxima à da prevenção geral e numa perspectiva baseada em direitos, onde se reconhece a importância de alcançar a todos a fim de reduzir as vulnerabilidades e promover a inclusão social.

Ao compreender a prevenção do HIV como um exercício dos direitos humanos e da justiça social, o Brasil liderou o caminho no desenvolvimento de campanhas educativas progressistas sobre HIV para toda a população, incluindo os jovens – um dos grupos mais expostos aos riscos em relação à epidemia – e as demais populações-chaves vulneráveis, como os gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis. É necessário combater o estigma e a discriminação que mantém as populações vulneráveis longe dos serviços e apoios e construir uma resposta ao HIV e à AIDS com base no confronto às desigualdades estruturais. É preciso resgatar os princípios do direito e da inclusão, da solidariedade e da mobilização política.

Ao longo da última década, chegamos mais próximos da visão de Betinho de uma eventual cura para a AIDS. Agora temos um leque mais amplo de ferramentas que podem ser usadas para o tratamento e para a prevenção. Embora ainda ocorra a promoção do uso de preservativos como método central da prática eficaz de prevenção, hoje também é possível o acesso à profilaxia pós-exposição (PEP) – para quem necessita por qualquer motivo: seja porque o preservativo se rompeu ou porque não foi possível usar preservativos. Há ainda a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), em fase de testes no Brasil, mas que já está disponível para uso regular em muitos países. Sem dúvidas, a PrEP será uma parte cada vez mais importante do kit de ferramentas de prevenção do HIV no futuro. O tratamento ajuda na prevenção primária porque reduz a carga viral das pessoas que são HIV positivo. Portanto, o tratamento como prevenção (TasP) é uma parte central das estratégias para acabar com a epidemia de HIV em um futuro previsível. Em contextos onde a epidemia de HIV tem sido concentrada nas populações-chaves, realizar campanhas de prevenção combinada – que envolvem desde o tratamento eficaz até a promoção do uso do preservativo e mudanças estruturais para redução das vulnerabilidades – podem mover-nos notavelmente para controlar a epidemia. Com os avanços significativos que ocorreram no tratamento da infecção pelo HIV, a ciência e o atendimento clínico estão cada vez mais perto de perceber o que antes parecia um sonho utópico: a visão de Betinho de que um dia a cura da AIDS será anunciada. Não estamos lá ainda, mas hoje podemos compartilhar a convicção de Betinho de que um dia teremos a cura!

Apesar dos avanços, a forma como olhamos para a resposta ao HIV e AIDS no Brasil e no mundo em 2014, é motivo de preocupação. No Brasil, tem ocorrido o aumento de intervenções por parte dos movimentos conservadores que desejam voltar o relógio e negar a importância fundamental que Betinho deu ao princípio da solidariedade como fundamento para a resposta ao HIV e à AIDS. Nos últimos quatro anos, a bancada conservadora do Congresso brasileiro convenceu o governo Dilma a censurar e abortar campanhas importantes, destinadas a combater a homofobia e promover a democratização da informação para as populações vulneráveis da epidemia de HIV. Primeiro foi a campanha contra a homofobia nas escolas. Depois foi a campanha de prevenção de HIV para gays e pessoas jovens trans realizada durante o carnaval. Em seguida, foi a campanha desenhada por e para mulheres profissionais do sexo para promover seus direitos e prevenir o HIV. Em todos os casos, a justificativa para a suspensão foi o oposto do princípio da solidariedade: a preservação da família e dos bons costumes frente à suposta ameaça dos direitos sexuais e inclusão social.

Estes eventos nos lembram que não importa o quanto nós avançamos nos últimos 20 anos, não importa o quão perto, cientificamente, podemos estar da cura da AIDS: ainda estamos muito longe – no Brasil e no mundo – de derrotar o vírus ideológico que foi desencadeado pela epidemia do HIV. A menos que redobremos os esforços, corremos o risco de não encontrar a cura para a epidemia, mesmo depois de ter encontrado a cura para o HIV. A menos que nos comprometamos com a mobilização política de todos os setores da sociedade para a defesa do direito à inclusão social de todos grupos sociais – não importa quão diferentes seus valores e práticas possam ser da nossa – estamos destinados a falhar na derrota à epidemia de HIV, mesmo quando a cura da AIDS estiver ao nosso alcance. Isso, em última análise, é o sentido mais fundamental do princípio de solidariedade que Betinho tentou nos ensinar.

A base deste princípio está na crença na capacidade humana de compreender a dor e o sofrimento dos outros como se fosse a nossa. E porque vivenciamos como nossos, somos convidados a assumir a responsabilidade de uma luta coletiva. Uma luta que envolve a mobilização da sociedade e o enfrentamento do estigma e da discriminação. Ao comemorarmos o Dia Mundial de Luta contra a AIDS, neste 1º de dezembro de 2014, é hora de redobrar o compromisso com este princípio da solidariedade e com a visão de uma vida digna de ser vivida como ela é. Como Betinho pontuou: “De repente me dei conta de que a cura da AIDS sempre havia existido, como possibilidade, antes mesmo de existir como anúncio do fato acontecido, e que seu nome era vida. Foi de repente, como tudo acontece.”

* Diretor-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, professor visitante do Instituto de Medicina Social da UERJ (RJ) e professor titular de Antropologia e Ciências Sociomédicas na Columbia University (EUA).

Publicada em: 03/12/2014

Vivendo com HIV - Sala de Convidados Entrevista